Nem a faxina e nem a corrupção são invenções
femininas. A corrupção é um evento de natureza essencialmente humana, que
decorre como fruto das oportunidades, elaboradas ou fortuitas, do caráter dos
oportunistas ou dos interesses escusos ou mal intencionados. Jamais acabaremos
com a tão disseminada “praga” da corrupção que corrompe os espaços da esfera
pública e privada. O que podemos fazer é “torná-la cada vez mais difícil de ser
praticada”, como pensa a nossa presidenta da República Dilma Rousseff.
Quem cunhou o termo “faxina” para denominar os
esforços que governo, parlamentares e organizações da sociedade estão
empenhando pelo controle da corrupção o fez sem considerar o significado do
próprio conceito e sem pensar nas conseqüências nele implicadas. A verdadeira
faxina é praticada todos os dias, nas nossas ruas e casas, por milhares de
mulheres e homens no Brasil que, de forma digna, fazem deste ofício o sustento
e alento de suas vidas. Estes, sim, “faxinam” os nossos lixos e restos.
É difícil falar de faxina sem recorrermos a uma
casa. Ocorre que existem implícitas em toda faxina diferentes modos de conceber
a arrumação como a limpeza de uma casa. Há quem prefira casas esterilizadas,
semelhantes a um centro cirúrgico ou cenário de novela. Há outros, no entanto,
que preferem casas que promovam a vida e a festa, muito antes da arrumação.
Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “A casa arrumada” afirma que:
“casa com vida é aquela em que os livros saem das
prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar. Casa com vida tem fogão
gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa
da cozinha. Sofá sem mancha? Tapete sem fio puxado? Mesa sem marca de copo? Tá
na cara que é casa em festa”.
Faxinar pressupõe, por isso mesmo, “limpar o
ambiente” com a certeza de que o mesmo logo mais estará sujo. E não é isto que
se deve fazer para combater a corrupção.
O fato é que, no nosso jeito brasileiro, em cada
momento histórico, vamos fabricando expressões lingüísticas para deixar tudo
como está ou para zombar de quem está fazendo alguma coisa. Sempre arrumamos
formas de não assumir nossa responsabilidade individual diante dos problemas
enfrentados por todos. Fica muito mais fácil e cômodo ignorarmos a “corrupção
nossa de cada dia”, aquela que enxergamos e da qual temos conhecimento, focando
como se a mesma se concentrasse na Capital Federal, Brasília. É sempre menos
comprometedor faxinar do que combater.
No Brasil, não vivemos a cultura da
radicalidade. Pela radicalidade, buscaríamos as soluções para nossos problemas
a partir da raiz de sua existência. Radicalidade é a nossa predisposição
para a mudança efetiva e comprometida das realidades. Mas será que temos alguma
predisposição para mudar o curso das coisas que movem a nossa vida social? A
quem interessa combater a corrupção?
A corrupção gera-se em contextos circunstanciais,
quando há oportunidades reais para que alguém, a partir de sua posição ou
poder, apodere-se injustamente de algo que não lhe pertence. Não há como deter
controle absoluto sobre as condutas pessoais e nem sobre a corrupção, mas há
muito para fazer para resgatarmos valores como a ética, a justiça, a
responsabilidade social, o zelo e a consideração pelas coisas públicas, a
dignidade humana, o valor da política. Estes, sim, podem constituir uma nação
mais cidadã e mais livre. São o verdadeiro antídoto para combater a corrupção.
0 comentário " A política não é a arte do que é possível fazer, mas sim de tornar possível o que é necessário fazer"
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